A TRAVESSIA - Quando uma revista precisou aprender a ser científica

21-08-2026

Depois do primeiro exemplar, veio o desafio maior: fazer a Principia sobreviver, crescer e conquistar credibilidade. A pequena publicação da então ETFPB começou a ampliar seu alcance, profissionalizar seus processos e abrir as portas para pesquisadores de fora. No caminho, descobriu que publicar ciência também significa aprender a dizer não.

A primeira edição da Principia havia saído. Com o papel impresso e os artigos reunidos, a ideia que durante algum tempo coubera em reuniões, documentos e na mochila de Marileuza Fernandes Correia de Lima agora podia ser segurada pelas mãos.

Mas uma revista científica não se torna uma revista científica porque conseguiu publicar o primeiro número. O primeiro número é apenas o começo, pois depois dele vêm as perguntas mais difíceis. Haverá autores para o próximo? Haverá pesquisadores dispostos a avaliar os trabalhos? Haverá dinheiro para imprimir? A revista conseguirá manter sua periodicidade? E, talvez a pergunta mais importante, os pesquisadores de fora da instituição reconhecerão aquele periódico como um lugar sério para publicar ciência? A Principia precisaria descobrir as respostas enquanto caminhava.

PORTAS ABERTAS

Nos primeiros anos, a circulação era pequena. A revista chegava principalmente às unidades da instituição — João Pessoa e Cajazeiras — e era enviada a órgãos públicos, universidades, instituições de ensino e pesquisa e visitantes. O mundo da Principia ainda era predominantemente físico. Para encontrar um leitor, era preciso colocar um exemplar nas mãos dele.

Nelma Mirian Chagas de Araújo, que mais tarde assumiria a editoria da revista, lembra desse período. A publicação impressa tinha a função importante de dar visibilidade à produção científica de professores e servidores técnico-administrativos envolvidos em pesquisa. Aos poucos, porém, os estudantes também começaram a aparecer. A implantação dos programas de bolsas de pesquisa aumentou o número de trabalhos produzidos e, consequentemente, o volume de submissões. A revista começava a cumprir uma função que ia além da publicação: ela ajudava a formar novos autores.

Havia ainda uma questão delicada. Se quase todos os autores fossem da própria instituição, a revista poderia acabar falando apenas para dentro de casa. Era necessário abrir as portas. Nelma lembra que uma das estratégias foi enviar a publicação para programas de pós-graduação, buscando atrair autores externos. A mudança ganhou força especialmente entre 2006 e 2010, período em que Cristina Madeira integrou o Conselho Editorial e, posteriormente, presidiu o órgão.

A Principia já não era apenas uma publicação que levava para fora o que o CEFET-PB produzia. Começava a ser também um lugar onde pesquisadores de fora queriam publicar. Essa diferença parece pequena, mas não é. É um dos sinais de amadurecimento de um periódico.

POR DENTRO

O crescimento trouxe outro problema. Não bastava receber mais artigos. Era preciso melhorar a maneira de tratá-los. No início, lembra Nelma, o processo editorial era bastante artesanal. Havia dedicação e compromisso, mas havia também limites.

A situação começou a mudar quando a Pró-Reitoria de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação recebeu profissionais especializados em comunicação e diagramação. O trabalho editorial ganhou qualidade com a chegada dos designers Adino Saraiva Bandeira, Fabricio Vieira de Oliveira e Regina Araujo dos Anjos. A aparência da revista mudou, o processo se tornou mais organizado, o banco de avaliadores cresceu, o Conselho Editorial foi se qualificando e o número de submissões aumentou. A Principia começava a descobrir uma verdade que acompanharia toda a sua história: crescer significa também criar regras para crescer.

A transformação trouxe uma consequência inevitável: maior rigor. A avaliação dos trabalhos submetidos ficou mais criteriosa. Alguns autores precisaram reformular profundamente seus textos, enquanto outros tiveram seus trabalhos rejeitados. Houve resistência, o que era natural.

Durante algum tempo, parte dos pesquisadores estava acostumada a uma dinâmica mais interna. Agora seus trabalhos seriam examinados por critérios mais rigorosos. A revista começava a dizer aos próprios pesquisadores que “nem todo trabalho enviado será publicado”. E essa talvez tenha sido uma das maiores mudanças da trajetória da Principia. Porque uma revista científica não demonstra sua qualidade apenas pelos artigos que publica. Também demonstra sua qualidade pelos critérios que utiliza para decidir o que não publicar. Cristina lembra que, com o tempo, a comunidade acadêmica compreendeu que aquele rigor não era uma barreira. Era uma forma de valorizar a pesquisa.

NOVA MISSÃO

Enquanto a revista amadurecia, a própria instituição mudava. A ETFPB havia se transformado em CEFET-PB. Depois viria o Instituto Federal da Paraíba, período em que a missão institucional também se ampliava, à medida que ensino, pesquisa, inovação e extensão passaram a caminhar juntos. A Principia precisou acompanhar esse movimento.

Cristina considera especialmente importante a decisão de alinhar a política editorial às transformações institucionais que culminaram na criação dos Institutos Federais, em 2008. Os eixos temáticos foram ampliados, os processos de avaliação foram aperfeiçoados e os critérios científicos ficaram mais rigorosos. A revista começava a refletir uma instituição que já não cabia na antiga definição de escola técnica.

MAIS LONGE

Foi nesse processo de profissionalização que surgiu a indexação, uma palavra que o leitor comum talvez não conheça, mas que traz uma ideia simples. Uma revista indexada passa a fazer parte de bases e sistemas que ajudam pesquisadores a encontrar seus artigos. É como colocar placas numa estrada: sem elas, o artigo pode existir, mas pode ser difícil encontrá-lo; com elas, o caminho fica mais visível.

Ademar Gonçalves da Costa Junior acompanhou uma parte importante dessa etapa como editor-chefe. Ele faz uma ressalva importante: o processo de indexação da Principia não começou com ele. Durante sua gestão, porém, o trabalho foi intensificado, e houve uma descoberta interessante. Cada base científica apresentava requisitos próprios. Para ser aceita, a revista precisava melhorar seus procedimentos. Era necessário rever políticas editoriais, fluxos de trabalho e práticas de ciência aberta.

Assim, a busca pela indexação produziu um efeito inesperado: ao tentar entrar em bases científicas melhores, a revista precisou se tornar uma revista melhor.

A Principia passou a ser aceita em bases nacionais e internacionais como Latindex, OasisBR e outros sistemas de informação científica. Os artigos começaram a ganhar maior visibilidade, e algo que seria impossível nos primeiros anos começou a acontecer. Um pesquisador distante da Paraíba podia encontrar um artigo da Principia sem receber um exemplar pelo correio, além de pesquisá-lo, lê-lo e citá-lo. A revista começava, lentamente, a atravessar fronteiras que o papel não conseguia atravessar com a mesma facilidade. Mas havia uma revolução ainda maior chegando.

A CAIXA

Durante anos, a Principia precisou ser impressa, envolvendo gastos com orçamento, gráfica, exemplares, armazenamento e distribuição, além de um limite físico. Se havia quinhentos exemplares, havia quinhentas oportunidades de alguém encontrar aquela revista.

A internet mudou essa matemática. A digitalização não foi simplesmente trocar papel por tela, mas mudar a própria lógica de circulação do conhecimento. O artigo passou a viajar como informação, deixando de precisar viajar fisicamente. Nesse momento, a Principia entrou numa nova etapa de sua história.

A revista que havia começado numa pequena sala, entre reuniões, papéis e decisões editoriais, estava prestes a descobrir que o mundo digital não mudaria apenas onde seus artigos seriam lidos. Mudaria também como eles seriam produzidos, avaliados, publicados e encontrados.

A próxima transformação não seria apenas editorial. Seria tecnológica. E, com ela, a Principia deixaria definitivamente para trás o mundo em que cada exemplar precisava ser colocado dentro de uma caixa para chegar ao seu leitor. A revista estava prestes a entrar na Internet.

Essa máteria é formada por outras duas matérias que contam a historia da Revista Principia

Materia 1 - Quando uma escola técnica decidiu publicar ciência (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/98)
Materia 2 - A TRAVESSIA -- Quando uma revista precisou aprender a ser científica (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/99)
Materia 3 - Do papel ao mundo, a Principia amplia fronteiras e prepara o próximo salto (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/100)

 

Por Filipe Donner