A SEMENTE - Quando uma escola técnica decidiu publicar ciência

21-08-2026

 

Em 1996, a então Escola Técnica Federal da Paraíba criou uma revista científica quando a pesquisa ainda dava seus primeiros passos na instituição. A Principia nasceu de uma ideia, encontrou quem acreditasse nela e começou a ser feita quase à mão. Três décadas depois, aquela primeira semente continua dando frutos.

Hoje, um pesquisador pode encontrar um artigo da Revista Principia sem nunca ter pisado em João Pessoa. Pode estar diante de um computador, em qualquer lugar do mundo, e localizar um trabalho publicado há dez, vinte ou até trinta anos. O texto está na Internet, tem identificação própria e pode ser lido, citado e compartilhado. Parece simples, mas não era.

Houve um tempo em que publicar na Principia significava trabalhar com papel, revisão, diagramação, impressão, orçamento e distribuição. Um artigo precisava percorrer um caminho físico antes de chegar a outro pesquisador.

A própria revista reconhece hoje que nasceu em 1996, na antiga Escola Técnica Federal da Paraíba, a ETFPB, criada por um grupo de professores que começava a desenvolver atividades de pesquisa.

Naquele tempo, porém, a pesquisa científica ainda era pequena dentro da instituição e foi justamente aí que começou a história. Não como uma revista pronta. Primeiro, houve uma ideia. Depois, pessoas dispostas a defendê-la. E, por fim, uma publicação que precisava provar, número após número, que poderia existir.

NOVA MISSÃO

Em 1995, Almiro de Sá Ferreira dirigia a ETFPB. A escola tinha uma tradição construída principalmente no ensino técnico. Mas os tempos começavam a mudar.

Professores ingressavam em programas de mestrado e doutorado. Laboratórios começavam a ganhar outro significado. Havia trabalhos produzidos por docentes e estudantes e experiências que não encontravam, dentro da própria instituição, um espaço regular para serem divulgadas.

A pesquisa começava a ocupar uma sala que antes parecia pertencer quase exclusivamente ao ensino. Foi nesse ambiente que surgiu a proposta de criar uma revista científica.

Almiro lembra que a ideia não nasceu de uma decisão isolada. Segundo ele, foi uma construção coletiva discutida durante o Planejamento Estratégico Participativo realizado no início de seu primeiro mandato, entre 1995 e 1999.

A motivação maior, recorda, estava ligada ao projeto institucional de transformar a ETFPB em Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba, o CEFET-PB.

A revista, portanto, não era apenas uma publicação, mas sim parte de um projeto maior. A instituição queria ampliar sua atuação para além da formação técnica e avançar em direção à pesquisa e à extensão, acompanhando também a criação dos primeiros cursos superiores de tecnologia. A Principia nasceria nesse cenário.

MOCHILA CHEIA

Marileuza Fernandes Correia de Lima estava entre essas pessoas. Em sua memória, a revista surgiu quando a instituição começava a viver um novo momento acadêmico.

Professores ingressavam em programas de pós-graduação. Alguns começavam a produzir pesquisas. Outros levavam experiências acadêmicas para os cursos técnicos. Havia produção, faltava um lugar para fazê-la circular.

A instituição, conta Marileuza, ainda tinha uma cultura de publicação científica muito incipiente. Muitos trabalhos acabavam destinados a revistas universitárias já consolidadas. Era preciso criar um espaço próprio, mas havia um problema, quem publicaria numa revista que ainda não existia?

Marileuza conhece bem a resposta. Ela conta que, no começo, precisou convencer professores e pesquisadores de que aquela ideia poderia dar certo. Para isso, carregava uma grande mochila cheia de documentos e materiais de divulgação e visitava professores para apresentar o projeto.

A cena é pequena, mas talvez explique melhor o nascimento da Principia do que qualquer documento administrativo. Uma mulher andando pela instituição com uma mochila. Dentro dela, papéis. Fora dela, uma ideia. A revista ainda não tinha páginas, mas já começava a ter defensores. O desafio não era apenas produzir uma revista. Era convencer as pessoas de que uma escola técnica poderia produzir ciência suficiente para sustentar uma revista científica.

Marileuza lembra que alguns pesquisadores já tinham acesso a periódicos consolidados em suas áreas. Era preciso mostrar que valia a pena apostar numa publicação ainda em construção.

A resposta veio aos poucos quando os professores começaram a participar. O grupo cresceu com o surgimento das discussões sobre o formato da revista, as normas, o fluxo de submissão, a revisão dos trabalhos e a composição do Conselho Editorial.

A ideia começava a ganhar corpo e havia ainda uma decisão aparentemente simples, mas que precisava ser tomada sobre como ela se chamaria. O nome escolhido foi Principia.

Alfredo Gomes Neto, integrante do primeiro Conselho Editorial e autor de um dos trabalhos publicados na edição inaugural, lembra que a escolha foi discutida pelo grupo. O nome fazia referência aos princípios e também à obra de Isaac Newton, Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, uma das obras fundamentais da história da ciência.

Como nem todos os leitores necessariamente fariam essa associação, a explicação foi incorporada aos primeiros números. O nome estava escolhido e a revista começava a existir também fora das conversas.

NOME ESCOLHIDO

Alfredo estava entre os pesquisadores que participaram daquele primeiro momento. Ele tinha uma característica que, anos depois, ganharia um significado especial: era um dos primeiros doutores formados no exterior pela instituição.

Mas naquele momento ele era também um pesquisador jovem diante de um projeto novo. Participou do primeiro Conselho Editorial e teve um trabalho publicado no número inaugural da Principia.

Hoje, olhando para trás, ele reconhece que não sabia que estava participando de um momento histórico. Naquele instante, havia orgulho. Mas havia também incerteza. Ninguém sabia se aquela primeira edição seria apenas uma experiência ou o começo de uma trajetória de três décadas.

O primeiro artigo de Alfredo — Circuitos em microfita, assinado com Jefferson Costa e Silva e Joabson Nogueira de Carvalho — integra o acervo histórico da revista. Hoje, o trabalho possui inclusive DOI, como parte do esforço posterior de preservação e disponibilização digital do acervo. Em 1996, entretanto, aquele artigo era simplesmente uma página dentro de uma revista de papel.

CADA VITÓRIA

A expressão de Alfredo resume o tamanho do desafio, “Cada número que era publicado era uma vitória.” Uma revista científica precisava de autores, de revisores de textos, de alguém para organizar tudo e precisava de dinheiro para imprimir. Não havia plataforma digital para receber manuscritos, nem havia sistema eletrônico para acompanhar pareceres e nem mecanismos automáticos de distribuição, o trabalho era feito por pessoas.

Maurileuza lembra que as primeiras edições foram produzidas de maneira praticamente artesanal. Os artigos eram selecionados, os textos revisados e a edição organizada. A capa também passava pelo Conselho Editorial, que chegou a analisar duas ou mais propostas antes de escolher uma delas. Uma pequena sala foi disponibilizada para as reuniões. Era pouco espaço e havia poucos equipamentos, mas havia uma equipe e, sobretudo, uma convicção. Aos poucos, a revista começava a sair do mundo das ideias.

Então chegou o momento do primeiro exemplar. Marileuza conta que recebeu a primeira edição em primeira mão. Foi um momento de emoção. Ela fala das lágrimas. Aquele objeto tinha um significado maior do que seu tamanho.

Ali estavam reunidos os primeiros trabalhos, o esforço de professores, servidores e pesquisadores, as decisões de um Conselho Editorial recém-formado e a aposta de uma instituição que ainda aprendia a fazer pesquisa.

Para Alfredo, o sentimento foi parecido. Orgulho. Mas também incerteza. A revista estava ali, agora vinha a pergunta mais difícil, ela continuaria?

PRIMEIRO FRUTO

A resposta não estava pronta, precisaria ser construída nos números seguintes. A Principia continuaria acompanhando a transformação da própria instituição.

A ETFPB se tornaria CEFET-PB e, posteriormente, IFPB. A pesquisa cresceria e a pós-graduação se ampliaria. Novos pesquisadores chegariam e outros estudantes passariam a participar da produção científica.

A revista também mudaria, mas sua primeira missão permaneceria, pois devia criar um lugar para que o conhecimento produzido na instituição pudesse ser registrado e compartilhado.

A documentação histórica do IFPB, por meio do Núcleo de Documentação e Pesquisa da Educação Profissional (NDPEP), confirma que o lançamento ocorreu em 26 de junho de 1996, em uma solenidade que reuniu a comunidade acadêmica e convidados, entre eles o então reitor da Universidade Federal da Paraíba, Neroaldo Pontes. Almiro de Sá Ferreira participou do evento como diretor-geral da ETFPB.

Era apenas o começo. Trinta anos depois, a revista já não é aquela publicação artesanal. Hoje ela é um periódico científico de acesso aberto, com publicação em fluxo contínuo, e mantém em seu acervo os registros das diferentes fases da instituição.

Mas talvez a melhor maneira de compreender o que aconteceu entre aquele primeiro exemplar e a revista de hoje seja lembrar de uma imagem deixada por Alfredo. Ele compara a trajetória a uma árvore.

Alguém, em algum momento, plantou uma semente sem saber exatamente quem um dia estaria debaixo de sua sombra. Em 1996, ninguém sabia até onde a Principia chegaria. Sabiam apenas que era preciso começar. E começaram.

Essa máteria é formada por outras duas matérias que contam a historia da Revista Principia

Materia 1 - Quando uma escola técnica decidiu publicar ciência (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/98)
Materia 2 - A TRAVESSIA -- Quando uma revista precisou aprender a ser científica (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/99)
Materia 3 - Do papel ao mundo, a Principia amplia fronteiras e prepara o próximo salto (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/100)

Filipe Donner - Jornalista