O SALTO - Do papel ao mundo, a Principia amplia fronteiras e prepara o próximo salto

Durante muitos anos, a Revista Principia precisou viajar de mãos em mãos, pois um exemplar era impresso e depois precisava encontrar um caminho até o leitor. Podia chegar a uma universidade, a uma biblioteca, a um órgão público, a um pesquisador. Podia permanecer numa estante durante anos. Era assim que o conhecimento circulava. Então a internet mudou a estrada. A Principia também mudou. Mas a transformação não aconteceu simplesmente porque o papel foi substituído por uma tela. Mudou a maneira de fazer a revista. E, com ela, mudou a distância entre quem produzia conhecimento e quem procurava por ele.
NOVA CASA
No mundo impresso, cada etapa dependia de pessoas, papéis, máquinas e tempo. No mundo digital, o trabalho passou a acontecer dentro de um sistema. Autores submetem seus artigos. Editores recebem. Avaliadores são convidados. Pareceres são registrados. Correções são acompanhadas. Versões são armazenadas. Metadados são organizados. O artigo recebe um identificador digital. E, finalmente, é publicado. O leitor vê apenas o resultado. Mas por trás daquela página existe uma espécie de engrenagem invisível.
Esse movimento ganhou nova dinâmica durante a gestão da professora Francilda Araújo Inácio, que atuou como Pró-Reitora de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação e acompanhou a implantação do Portal de Periódicos do IFPB. Para a professora, o Portal se tornou um instrumento de ampliação e visibilidade do conhecimento acadêmico produzido pela instituição, contribuindo para a democratização do conhecimento, um legado fundamental do IFPB.
Carlos Danilo Miranda Regis, atual editor da Principia e diretor executivo da Editora IFPB, acompanhou uma parte dessa transformação. Uma das mudanças foi a criação de editores de seção, responsáveis por áreas específicas da revista.
A ideia era simples. Se a revista publica trabalhos de diferentes campos do conhecimento, cada área precisa ser acompanhada por alguém que conheça profundamente aquela área. A organização tornou o processo mais especializado e mais próximo dos padrões exigidos pelos grandes sistemas de avaliação científica.
ALÉM DA TELA
Mônica Montenegro de Oliveira, que também foi editora da Principia, chama atenção para uma parte dessa história que quase nunca aparece. O leitor recebe o artigo pronto. Não vê o que aconteceu antes. Não vê o convite aos avaliadores. Não vê a espera pelos pareceres. Não vê as correções solicitadas aos autores. Não vê as discussões editoriais. Não vê a revisão final. Não vê a editoração. Não vê a responsabilidade de colocar uma informação científica diante da sociedade.
Uma revista científica, portanto, é muito mais do que uma coleção de artigos. É uma rede de pessoas trabalhando para que o conhecimento possa ser considerado confiável antes de chegar ao leitor. Essa rede existia no papel. A tecnologia apenas tornou possível fazê-la funcionar em outra escala.
SEM FRONTEIRAS
Há uma pequena sequência de letras e números que hoje pode parecer banal para quem publica ciência, DOI. O identificador digital permite localizar um trabalho mesmo quando páginas mudam, plataformas são atualizadas ou endereços eletrônicos deixam de existir. É como se cada artigo recebesse uma placa permanente.
A Principia passou a utilizar esse tipo de identificação. Também passou a trabalhar com metadados e padrões de interoperabilidade. São termos técnicos para uma mudança bastante simples de entender: ensinar os sistemas de informação a encontrar a revista e compreender o que existe dentro dela.
Foi assim que um artigo produzido na Paraíba pôde deixar de depender da circulação física de um exemplar para ser encontrado por alguém do outro lado do mundo.
Ademar Gonçalves da Costa Junior acompanhou a intensificação do processo de indexação da revista. E percebeu algo curioso. Cada vez que a Principia tentava entrar em uma nova base científica, encontrava novos requisitos.
Era preciso melhorar políticas editoriais. Aperfeiçoar procedimentos. Adotar práticas de ciência aberta. Organizar melhor os fluxos. Rever padrões.
A busca pela indexação acabou produzindo uma consequência maior. A revista foi se tornando mais profissional porque precisava provar que era profissional.
A Principia conseguiu presença em bases nacionais e internacionais. E isso mudou sua visibilidade. Antes, para ler um artigo publicado na revista, era necessário encontrar um exemplar. Agora, um pesquisador pode encontrá-lo durante uma busca bibliográfica. Pode ler. Pode utilizar. Pode citar. A fronteira física desapareceu.
Há outra mudança silenciosa no empreendimento da Revista Principia. Trata-se do acesso aberto. Um artigo publicado em acesso aberto pode ser consultado gratuitamente. Não é preciso possuir o exemplar, nem é preciso estar fisicamente dentro de uma biblioteca. Não é preciso esperar que alguém envie a publicação.
Para Danilo Regis, esse modelo produz um ciclo em que todos ganham. O autor amplia a visibilidade de sua pesquisa. O leitor ganha acesso ao conhecimento. E a instituição cumpre uma parte importante de sua função social, que é devolver à sociedade o conhecimento produzido com participação do investimento público.
A revista, que um dia dependia de uma tiragem limitada, passou a poder alcançar leitores sem precisar imprimir um único exemplar adicional.
A tecnologia abriu a porta. A internacionalização mostrou o tamanho do corredor. Mônica Montenegro, hoje ligada à área de Assuntos Internacionais do IFPB, conhece os dois lados dessa história. Como editora, acompanhou a transformação da revista. Hoje, olhando para a produção científica a partir da perspectiva internacional, vê algo ainda maior.
NOVOS DIÁLOGOS
Uma revista científica não internacionaliza uma instituição simplesmente porque publica um artigo em inglês. Internacionalizar significa estabelecer diálogo. Criar redes. Atrair pesquisadores de outros países. Compartilhar conhecimento. Ouvir outras perspectivas. Fazer com que uma pesquisa produzida na Paraíba possa participar de uma conversa que acontece em qualquer outro lugar. E, ao mesmo tempo, permitir que o conhecimento produzido fora chegue até aqui. A Principia pode ser uma dessas portas.
ALÉM DOS NÚMEROS
Talvez seja aqui que as três décadas da revista encontrem sua melhor imagem. Alfredo Gomes Neto, integrante do primeiro Conselho Editorial e autor de um dos artigos da edição inaugural, comparou a trajetória da Principia a uma árvore.
Alguém planta uma semente. Anos depois, vê uma árvore dando sombra e frutos. Mas quem está debaixo da sombra nem sempre sabe quem plantou.
Em 1996, ninguém poderia saber exatamente onde aquela pequena revista chegaria. A instituição ainda era uma escola técnica. A pesquisa científica dava seus primeiros passos. Havia poucos mestres e doutores. O processo de impressão era caro. A revisão e a diagramação eram trabalhos difíceis.
Cada edição publicada era, como lembrou Alfredo, uma vitória. Trinta anos depois, a árvore é outra.
A Principia hoje é um periódico científico multidisciplinar, de acesso aberto e fluxo contínuo. Está presente em bases de dados nacionais e internacionais. Utiliza sistemas digitais de gestão editorial. Adota avaliação por pares. Trabalha com práticas de ciência aberta. Busca ampliar sua presença internacional.
A avaliação Qualis mais recente mencionada pela Pró-Reitoria de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação é B2. São indicadores importantes. Mas talvez não sejam os mais importantes.
Mônica chama atenção justamente para aquilo que os indicadores não conseguem contar. Um artigo pode ter poucas citações e, ainda assim, ter mudado a trajetória de um estudante. Pode ter sido a primeira publicação de um pesquisador. Pode ter ajudado alguém a descobrir que também poderia fazer ciência. Pode ter aproximado duas instituições. Pode ter produzido uma ideia que nunca apareceu numa planilha. Há frutos que não cabem numa métrica.
Essa talvez seja uma das histórias menos visíveis dos 30 anos. A Principia não publicou apenas pesquisas. Ela ajudou a formar pesquisadores. Marileuza Fernandes lembra que a revista nasceu em um momento em que a cultura científica ainda era incipiente na instituição.
Havia professores ingressando em mestrados e doutorados. Havia estudantes começando a participar de pesquisas. Havia disciplinas de metodologia científica. Havia trabalhos sendo produzidos nos laboratórios.
A revista ofereceu um lugar para que aquele conhecimento fosse escrito, depois publicado, lido e, talvez, contestado. Depois, aprimorado. Assim se constrói uma cultura científica: não de uma vez, mas artigo por artigo.
PRÓXIMA ESTAÇÃO
A Principia chegou aos 30 anos. Mas não chegou ao fim e a próxima etapa já está sendo desenhada.
Silvana Cunha Costa, Pró-Reitora de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação do IFPB, aponta alguns dos caminhos: ampliar a presença internacional, atrair mais submissões em língua estrangeira, aumentar a participação de pareceristas internacionais, buscar bases de maior impacto e aprofundar as práticas de ciência aberta.
Carlos Danilo aponta para o fortalecimento dos processos digitais. Ademar lembra do desafio de alcançar grandes bases científicas. Mônica fala da necessidade de construir redes internacionais sem abandonar a identidade institucional.
Todos, de alguma maneira, estão falando da mesma coisa. A revista precisa continuar mudando sem deixar de ser Principia.
Talvez essa seja a pergunta que melhor encerre uma história de 30 anos. O que fazer depois que a semente virou árvore?
A resposta não está apenas nos sistemas digitais. Nem nos indexadores. Nem nos indicadores. Nem nas futuras classificações. Está nas pessoas que ainda vão escrever. Nos estudantes que ainda vão descobrir a pesquisa. Nos pesquisadores que ainda vão encontrar um leitor. Nas perguntas que ainda não foram feitas. E nos conhecimentos que ainda não existem.
Em 1996, a Principia precisava convencer alguém de que uma escola técnica podia publicar ciência. Trinta anos depois, a pergunta mudou. Já não é mais “Será que conseguimos?”, mas “Até onde podemos chegar?”.
A revista nasceu na Paraíba. Atravessou a transformação da ETFPB em CEFET-PB e, depois, em IFPB. Passou do papel para o digital. Da circulação local para as redes científicas. Do esforço artesanal para processos editoriais profissionalizados. De uma comunidade predominantemente interna para uma rede cada v ez mais aberta a pesquisadores de diferentes lugares.
E agora olha para fora. Para o Brasil. Para outros países. Para o mundo. Mas talvez o mais bonito seja que, depois de três décadas, a Principia continue fazendo aquilo para o qual nasceu: dar lugar àquilo que o conhecimento humano descobriu e ainda quer descobrir.
A primeira edição precisou ser impressa para existir. A próxima geração não terá essa limitação. Um pesquisador poderá estar em João Pessoa. O leitor, em outro continente. Entre os dois, haverá apenas uma tela e uma ideia.
Essa máteria é formada por outras duas matérias que contam a historia da Revista Principia
Materia 1 - Quando uma escola técnica decidiu publicar ciência (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/98)
Materia 2 - A TRAVESSIA -- Quando uma revista precisou aprender a ser científica (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/99)
Materia 3 - Do papel ao mundo, a Principia amplia fronteiras e prepara o próximo salto (https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/announcement/view/100)
Por Filipe Donner
Jornalista do IFPB
EM TEMPO
Aos 62 anos, depois de 42 anos de convivência com o serviço público, encerro também minha jornada no IFPB.
Foi uma honra caminhar com vocês.
A semente virou árvore. Outras mãos cuidarão dos próximos frutos.
A todos os servidores e amigos da Rede Federal que fizeram parte dessa caminhada, minha gratidão.
Agora, cuidem da próxima estação.




















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